A (má) gestão florestal, os incêndios e o futuro de Portugal

O verão de 2013 chegou ao fim com as matas portuguesas consumidas num mar de fogo, ao longo de muitos dias, apesar dos enormes gastos com meios de ataque, como aviões e carros de bombeiros, com enormes prejuízos económicos, ambientais e sociais e, sobretudo, com a morte de várias pessoas.

Digamo-lo frontalmente: com o desmazelo a que estão sujeitas as nossas florestas, com a acumulação de matéria altamente combustível ano após ano, com espécimes altamente inflamáveis como o pinheiro bravo e o eucalipto, com a desertificação do interior rural, onde só restam idosos, muitos deles com limitações de locomoção, por doença e idade, e também consequência de vagas de calor que parecem tornar-se cada vez mais frequentes e intensas, lutar contra o fogo quando as temperaturas ambientais sobem acima dos 35 º C e a humidade atmosférica é muito baixa, é tarefa praticamente impossível. Dito isto, parece que estamos condenados ao inferno literal, nos meses de julho e agosto. Não é bem assim. E se até agora os factos parecem confirmar a inevitabilidade da desgraça, a verdade é que o desastre continuado a que temos assistido se deve à responsabilidade de todos nós e dos governantes que temos escolhido. O que se pode fazer então?

A mais importante medida é gerir a floresta. Segundo as previsões dos climatologistas, a tendência é para a média das temperaturas continuar a subir nas próximas décadas. Assim, vale a pena pensar nas diferentes regiões do país, no coberto vegetal que melhor se adaptaria a cada uma delas e na rendibilidade dos produtos silvícolas, em face da ocupação antrópica (características da população humana) de cada zona.

No sul do país, particularmente no Alentejo, os montados de sobro e azinho são bem adequados à secura dos solos e também à resistência ao fogo, particularmente no caso do sobreiro. A bolota é um alimento útil na criação de porcinos e estes animais contribuem para a limitação do crescimento de vegetação rasteira. Acresce que a cortiça é um bem de elevado valor económico, de que Portugal é o primeiro produtor mundial. Conservar o montado existente e expandi-lo a outras regiões de verões quentes e muito secos, fomentando atividades como a exploração de cortiça, de madeira para combustível, a caça, a pastorícia, a apicultura, etc., parece razoável.

No centro e norte do país montanhoso, onde os incêndios têm deixado muitas zonas despidas de coberto arbóreo, outrora revestido de árvores como os castanheiros e os carvalhos, estes largamente abatidos para construção das naus com que se fizeram os descobrimentos e, muito posteriormente, para obtenção das travessas das linhas de caminho de ferro, devastação que se prolongou até final do século passado, as zonas hoje florestadas são-no essencialmente com pinheiro bravo e eucalipto, cujas culturas se expandiram enormemente durante o século vinte, o pinheiro a partir do seu início e o eucalipto a partir da segunda metade. O pinheiro-bravo é fonte de rendimento importante de madeira, resina e pasta de papel e o eucalipto sobretudo de pasta de papel. Porém, a florestação com pinheiro-bravo e eucalipto com a tendência do clima para aquecer, sem desbaste e remoção periódica da matéria vegetal seca acumulada no solo, consequência da desertificação humana do interior do país, tornou cada pinhal ou eucaliptal num “paiol de pólvora” pronto a deflagrar à mais leve ignição, seja ela criminosa ou natural ou resultante de descuido. Parece pois que as zonas do centro e norte do país, com características mais atlânticas (mais húmidas) ou mais mediterrânicas (com estações secas mais longas) deveriam receber espécimes florestais mais convenientes e variados, escolhidos entre os carvalhos, o castanheiro ou mesmo o sobreiro ou outras árvores que, consoante os locais, fossem vantajosas: coníferas de agulha curta, bétulas, medronheiros, etc. Os carvalhos ainda recentemente foram entre nós fonte de madeira útil e muito apreciada no fabrico de móveis e de barrotes de grande resistência e durabilidade para a construção bem como de matéria lenhosa para combustão. E o castanho também, além da produção de fruto que, noutros tempos, foi componente importante da alimentação dos portugueses e hoje pode ser usado na confecção de variados produtos alimentares. De resto, também a bolota chegou a ser usada na alimentação humana, até no fabrico de pão! Mas o principal benefício da florestação com caducifólias residiria na sua maior resistência à combustão e, por essa via, na prevenção de incêndios. Naturalmente, para além das escolhas das espécies arbóreas, a prevenção de fogos implica sempre a remoção de matos rasteiros, a construção de faixas de contenção e muito ganharia, seguramente, com o recurso adequado ao uso do fogo preventivo, durante as estações (mais) húmidas.

Obviamente, tomar decisões fortes sobre a floresta implicaria tocar em poderosos interesses económicos e em postos de trabalho que existem, para além das mentalidades, mas tinha a vantagem de proporcionar novas possibilidades económicas e novas perspectivas de emprego. Tirando a limpeza periódica obrigatória e atempada das matas, pelo menos em zonas mais críticas, e a punição mais efetiva do fogo criminoso, não sei que outras soluções se possam seguir. Sei, no entanto, que não podemos assistir impotentes à destruição do país pelas chamas infernais de cada estio.

Entretanto, e face à incapacidade ou impossibilidade das autarquias, seria bom chamar os cidadãos diretamente à colaboração, acautelando efetivamente, em letra de lei, habitações e pessoas do perigo de incêndio florestal: relativamente a casas de habitação devia a legislação estabelecer um perímetro de limpeza obrigatório, com a medida conveniente, a executar pelos proprietários dos terrenos até fins de junho, mas que, em caso de incumprimento, pudesse ser feito pelos donos ou ocupantes de cada casa, revertendo, nesta situação, em seu proveito, os materiais colhidos nas operações de limpeza.

Entretanto resta-nos chorar os mortos e aguardar as primeiras chuvas, o que é – além do prejuízo, incalculável – imensamente triste.

Não termino este texto sem a homenagem devida à coragem e abnegação dos soldados da paz.

José Batista da Ascenção.

Referências:

“Os Carvalhais – Um património a conservar”. Árvores e florestas de Portugal, vol 2. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

“Os Montados – Muito para além das árvores”. Árvores e florestas de Portugal, vol 3. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Abril de 2007.

“Pinhais e eucaliptais – A floresta cultivada”. Árvores e florestas de Portugal, vol 4. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

“Do castanheiro ao teixo – As outras espécies florestais”. Árvores e florestas de Portugal, vol 5. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

“Proteger a floresta – Incêndios, pragas e doenças”. Árvores e florestas de Portugal, vol 8. Edição: Público, Comunicação Social, SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Vários autores. Lisboa. Maio de 2007.

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