A bancarrota e Os Maias

Eça de QueirósHá meses, por razões profissionais, reli (como sempre, com prazer) alguns episódios de Os Maias, entre eles o do jantar no Hotel Central, organizado por Ega para apresentar Carlos a alguns representantes da alta sociedade lisboeta. Durante o jantar, Ega procura confirmar com o banqueiro Cohen os rumores de que o governo está a negociar com a banca um novo empréstimo: «– Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá… O empréstimo faz-se ou não se faz?».

O banqueiro, lisonjeado pela atenção dos companheiros, confirma a inevitabilidade do empréstimo público e acrescenta que «A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – “cobrar o imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim se havia de continuar…». Palavras premonitórias, as de Cohen! Era assim no século XIX, foi assim durante o século XX, continua assim neste início do século XXI.

A reacção de Carlos é a de qualquer pessoa sensata, dizendo que «desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a bancarrota», o que é confirmado, cinicamente, por Cohen: «- Num galopezinho muito seguro e muito a direito».

Ao reler esta passagem, com a actual crise financeira em fundo, ocorreu-me que:

  • Nestes últimos cento e tal anos o país não mudou tanto como parece;
  • Há problemas que permanecem, não porque sejam insolúveis, mas porque não procuramos a solução adequada para eles;
  • Um livro antigo pode ser actual;
  • Precisamos ler mais, sobretudo textos que falem de nós, como povo e como país.

Jorge Santos

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