Manuel António Pina

Os Gatos //

Há um deus único e secreto

em cada gato inconcreto

governando um mundo efémero

onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda

nos seus vastos aposentos

de nervos, ausências, pressentimentos,

e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,

e compassivo o deus

permite que o sirvamos

e a ilusão de que o tocamos

O Eu e a Sociedade

                                         O Eu e a Sociedade

 

( Texto sugerido pelo  poema Cântico Negro)

 

Hoje em dia, com a preocupação que há com os direitos humanos e a liberdade de expressão, por parte dos governos e de muitas organizações internacionais, é fácil estar informado e ter uma opinião própria, embora nem sempre isso aconteça.

Efetivamente, um dos maiores obstáculos à liberdade de expressão é o facto de as pessoas não estarem devidamente informadas para poderem ter as suas próprias ideias porque não despertaram para o conhecimento do que se passa em seu redor. Vivemos numa sociedade cheia de pessoas que não pensam e com demasiados vendedores de opinião, como reparamos nos meios de comunicação social.

Por outro lado, há também um enorme controlo dos meios de comunicação por parte dos governos e empresas poderosas que visam proteger os seus interesses. Cabe-nos não tomar como verdade absoluta aquilo que lemos, vemos na televisão, ou ouvimos. Devemos saber distinguir factos de opiniões e filtrar a informação que nos chega, analisando aquilo em que devemos acreditar. Embora não vivamos a opressão que havia outrora, é possível ainda abafar as boas ideias daqueles que podem destronar certos padrões estabelecidos. Porém, se tivermos a capacidade de pensar com ideias inovadoras e gerar uma união de vozes poderemos afrontar quem está no poder. É o nosso discernimento que nos dá a segurança necessária para sermos autónomos e não nos deixarmos orientar por este ou aquele grupo. O seguidismo combate-se com a informação. As pessoas documentadas não se abandonam às influências.

Em síntese, na sociedade atual, a verdadeira autonomia resulta do pensamento e reflexão de cada indivíduo, sem que este se deixe influenciar cegamente.

 

José Pedro Pinto, nº16, 10º I.

 

 

N.B. – Texto com algumas alterações.

 

 

Dia dos Namorados

Saudade, não sei seu nome
Mas sinto-a em cada hora…
É dor que não se define
Mas no rosto se  demora…
Saudade do que não fui,
Saudade do que serei,
Saudade do teu amor,
Do beijo que te não dei..
Passa o dia, vem a  noite,
Relembro-te em cada instante,…
Mas a imagem de ti
É só um eco distante…
Não sei como , meu amor,
Entender meu coração
Que triste chora por nós
Sem conhecer a razão…
Pergunto-me tanta vez
Se pode isto acontecer,
Se mesmo tão indistinto
Te posso tão bem querer…
Às vezes pergunto ao vento
ou brisa que passa leve
Se pode ter-se na alma
O amor  que nunca se teve.
E o vento nada me diz,
Dispersa ao longe o lamento,
E dentro do coração
Só a saudade tem tempo…

Cândida Esteves Soares ( 14 de fevereiro de 2014)

Poesia de Cândida Esteves Soares

Saio de mim

Viajando pelas páginas da vida,

Soltando amarras

Em cada partida.

Nas marés

Embalo  o barco da ilusão

Sempre nova,

Irrepetida.

Solto o vendaval

E a fúria desse mar

Em  vagas de espuma e sal,

Temo por vezes o incerto,

Sem avistar a ilha onde aportar…

E a solidão  corrói

A alma deste vagabundo do mar…

Mas foi-se a escuridão ,

O azul se abriu ao longe

E  o canto  da brisa envolve-me

Outra vez, irresistível…

É já além o porto, talvez ,

Para ficar…

 

Cândida Esteves Soares

A Biogeografia da Cor

A BIOGEOGRAFIA DA COR

Palestra pelo Professor Doutor Jorge Paiva, na ESCA, em 27 novembro de 2013

INTRODUÇÃO

Os seres vivos distribuem-se no meio ambiente de acordo com as condições a que estão adaptados, quer as devidas a fatores abióticos (luz, temperatura, humidade, presença de certos elementos ou compostos químicos, etc.) quer as que se relacionam com a presença de outros seres vivos, designados fatores bióticos (predadores, presas, parasitas, competidores, etc.). Claro que cada ser vivo é o resultado de uma longa e constante evolução, pelo que as suas caraterísticas podem ir variando ao longo do tempo, mas tendem, em cada “tempo” e em cada “lugar”, a manifestar-se de modo a que, no seu conjunto, permitam a sobrevivência. Se não for assim, as espécies extinguem-se. A cor é apenas uma de muitas características que variam nos seres vivos, da mesma e de espécies diferentes, em função das condições do meio. É este assunto, que revela aspetos surpreendentes, que o Professor Jorge Paiva abordará na palestra intitulada “A Biogeografia da Cor”. Nesta palestra, a profusão de imagens, normalmente curiosas e muito belas, e as explicações do Professor, fazem ressaltar o interesse, a beleza e a profundidade do tema. Mas, para uma reflexão ou revisão posterior, convém um texto escrito que resuma os aspetos científicos essenciais. Esse resumo, escrito e gentilmente cedido pelo autor, apresenta-se a seguir, para quem estiver interessado.

José Batista da Ascenção

A BIOGEOGRAFIA DA COR


biogeografia
Na Natureza nada é aleatório. Tudo o que nela existe resultou de milhões de anos de evolução. Os seres vivos não evoluíram independentemente, mas integrados nos respetivos ecossistemas.

As plantas, como não se movem, para se “alimentarem” necessitam de luz e pigmentos assimiladores e captadores de energia (clorofilas e carotenoides), cuja concentração depende das coordenadas geográficas onde vegetam. Assim também, para se reproduzirem sexuadamente e para se dispersarem, são dependentes de agentes transportadores (ar, água e animais) dos seus diásporos (esporos, sementes e frutos). Desta maneira, evoluíram adaptando-se não apenas às condições ecológicas dos ecossistemas onde vivem, mas também aos agentes dispersores. Quando os agentes dispersores são animais, ocorreu frequentemente uma evolução adaptativa paralela com esses animais (coevolução)

Nas Angiospérmicas (plantas vasculares, com flores e frutos), a cor predominante das folhas é o verde, pois a clorofila é o pigmento mais importante para a elaboração dos nutrientes necessários para as funções vitais das plantas. Mas as cores das flores e dos frutos resultaram de uma evolução adaptativa aos agentes polinizadores e dispersores, particularmente animais.

Os animais não têm todos a mesma visibilidade para as cores. Assim, do espetro solar (arco-iris) os humanos vêm as cores das radiações desde os 380 nanómetros de comprimento de onda (violeta) aos 740 nanómetros (vermelho). Os cães e gatos vêm poucas cores, apenas do azul ao amarelo. Um cão guia sabe que o semáforo está vermelho, pela posição da luz na vertical do semáforo, pois não vê a cor, apenas tem a perceção da luz estar apagada ou acesa. Por isso, as posições das 3 cores dos semáforos são sempre as mesmas em todos os semáforos (a superior é vermelha, a do meio é amarela e a inferior é verde). Nos humanos também há que contar com os daltónicos que não vêm o vermelho. Muitos insetos (abelhas por exemplo) e muitas aves, vêm para além do violeta (ultravioleta), que nós não vemos, mas podemos saber como as abelhas vêm essa cor nas flores, através de fotografias com filmes sensíveis ao ultravioleta. Por outro lado, as abelhas e muitos outros insetos não vêm o vermelho. As cobras, por exemplo, têm uma reduzida amplitude de visão das cores do espetro solar, mas “percebem” para lá do vermelho (infravermelho), o que é muito útil para predadores noturnos de presas de sangue quente.

Por isso, as cores das flores dependem do espetro visual dos polinizadores e a cor dos frutos da visão dos dispersores. Assim, em Portugal as flores das nossas plantas nativas não são vermelhas, pois os polinizadores no nosso país são maioritariamente insetos. Já temos frutos vermelhos, pois alguns dos dispersores são aves, que vêm o vermelho. As flores que estão adaptadas a polinizadores noturnos, são brancas.

A cor de muitos animais e plantas depende da altitude, como, por exemplo, algas vermelhas a profundidades maiores que as algas castanhas e as verdes à superfície. O mesmo acontece com alguns peixes, particularmente dos ecossistemas coralígenos, por se manterem em nichos ecológicos horizontais. As cores dos seres vivos também dependem da latitude, como, por exemplo o urso polar é branco e os ursos de latitudes inferiores são castanhos e até pretos. Com as plantas passa-se o mesmo, pois as das latitudes equatoriais são de folhagem verde-escura e as que se encontram entre os círculos polares e os respetivos trópicos (cancer e capricórnio) são verde-claro. Embora não haja uma dependência tão intensa da cor dos seres vivos com a longitude, existem muitos exemplos, como, por exemplo, os nossos carvalhos e aceres têm folhagem acastanhada no Outono e a dos americanos é avermelhada.

As cores dos animais também dependem dos hábitos de vida (ex.: os predadores noturnos são sarapintados de branco e escuro) e dos ecossistemas onde vivem (ex.: os cavernícolas são despigmentados pois vivem permanentemente na escuridão, por isso são brancos e cegos).

Jorge Paiva, Biólogo

Centro de Ecologia Funcional. Universidade de Coimbra

jaropa@bot.uc.pt

Jorge Paiva: Botânico, professor, investigador, ambientalista e divulgador

Jorge Américo Rodrigues de Paiva 

Botânico, professor, investigador, ambientalista e divulgador

Imagem As linhas que se seguem não se debruçam sobre a obra científica do botânico Jorge Paiva. Relativamente a essa matéria não faltará quem, com propriedade e competência, a registe e aprecie como é devido. Trata-se apenas de um humilde texto de reconhecimento e gratidão à pessoa e ao cidadão empenhado sobretudo nas causas do ambiente e da sobrevivência humana, ao Mestre e amigo de quantos gostosamente o procuram, o ouvem e com ele discutem as suas mensagens.

O Professor Jorge Paiva nasceu em Angola, a 17 de Setembro de 1933. Formou-se na Universidade de Coimbra onde foi investigador e professor das Faculdades de Ciências e de Farmácia. Lecionou também em várias outras universidades. Entre os alunos era muito admirado e estimado, quer pelo rigor, quer pela clareza das suas lições, quer pela disponibilidade para receber e esclarecer os alunos, que às vezes acompanhava sistematicamente, dando explicações mesmo de matérias que não eram  a sua ocupação diária, por exemplo de química. Com os seus alunos, era muito comum sair dos muros da universidade, ou dos espaços do jardim botânico e levá-los a conhecer flora e fauna das mais variadas regiões: Margens do Mondego, Mata da Margaraça, Paul de Arzila, Gerês, Estrela… Fez investigação em Portugal, no continente e no que eram as antigas colónias portuguesas em África, e no estrangeiro (durante três anos trabalhou em Londres nos Jardins de Kew e na Secção de História Natural do Museu Britânico). Foi várias vezes premiado pelos seus trabalhos de investigação, quer publicações de botânica quer relacionadas com a saúde (estudo de pólenes e alergias), quer ainda pela sua ação como  ambientalista. Outros botânicos prestam-lhe homenagem batizando novas espécies de plantas, de diferentes continentes, com nomes (latinizados) derivados do seu, como é o caso da Dendroceros paivae, uma planta semelhante a musgo, de S. Tomé e Príncipe, ou de diversas angiospérmicas (plantas com flores que dão frutos que encerram as sementes) de que são exemplos: a Hyancinthoides paivae , uma liliácea do Minho e da Galiza, a Monotes paivae, uma planta africana, da província do Bié, em Angola, e a Argyreia paivae, uma planta trepadeira, de Timor.  

Muito dedicado à causa do ambiente palmilhou o país de lés a lés, observando, fotografando, ouvindo as pessoas e fazendo palestras para os mais variados auditórios. Alertou atempada e energicamente para o erro da extinção dos serviços florestais, para o contra senso da monocultura florestal, como no caso do eucalipto,  para os enormes riscos de incêndio, para a progressiva destruição do coberto arbóreo de vastas zonas e dos cimos montanhosos e para a desertificação humana do interior do país.  Sensível, muito atento e disponível, percebeu desde sempre a necessidade de formação e de atualização dos professores do ensino básico e secundário, que passaram a ver nele um apoio de generosidade inteira e limpa: desloca-se onde o chamam, desdobra-se em conferências e palestras pelas escolas, onde adultos e jovens, com formações muito diversas, e mesmo as crianças mais pequenas, o ouvem com espanto e atenção; somaram-se centenas e depois milhares  de sessões sempre com a mesma prontidão e energia, sem nada cobrar por viagens, dormidas ou refeições, refeições que, por vezes, chegou teimosamente a pagar aos acompanhantes. Como formador de professores conduziu dezenas deles a variados locais de interesse, como os acima referidos e a  outros, como a Foz do Sado ou a Serra Algarvia. Da Madeira, trouxe alunos de pós-graduação ao Gerês. Continua a correr o mundo, procura os “santuários” naturais e as zonas degradadas pela poluição: observa, fotografa, estuda, documenta e divulga. Não desiste da sua mensagem nem afrouxa a sua disponibilidade. O amor pela Natureza fê-lo comemorar os seus oitenta anos subindo ao Pico da Nevosa no Gerês, numa caminhada de cerca de 24 quilómetros. Com fundamento, alerta-nos para a condição do ser humano “preso” na gaiola “Terra”, que nos mostra em imagens reais, captadas por si nos locais mais díspares. É com belas imagens dessas que ilustra as muitas centenas de postais de Natal que todos os anos envia a muitas centenas de pessoas, uma ideia original que combina uma enorme ternura com lições de ecologia em várias línguas, em resumos densos e curtos, mas fáceis de compreender. “Cidadão da Natureza” diz, com alguma pena: “Só me falta ir à Antártida!”

Nestes anos de início de século tem sido visita assídua da Escola Secundária Carlos Amarante, a pedido nosso, sempre aceite com entusiasmo e generosidade. No próximo dia 27 de novembro, às dez horas, tê-lo-emos mais uma vez na nossa escola a apresentar o tema “A Biogeografia da Cor” (de que se poderá ler resumo da sua autoria em texto a afixar proximamente, neste blogue).

 Ontem como hoje, agora e sempre: Obrigado Bom Mestre.

José Batista da Ascenção

Poesia de Fábio Fontes nº 11 11ºL

Se é do tempo que demora na passagem

Ou da noite que traz a escuridão,

Se é do medo que transformas em coragem

Ou do sonho que trazes fechado na mão,

Se é do vento que transporta a liberdade

Ou da estrela que brilha noite e dia,

Se é do sonho que rompe a realidade

Ou daquilo a que chamas alegria,

Se é do tempo que ao passar só deixa história

Ou do céu que tu podes atingir,

Se é da forma como lutas pela vitória

Ou do reino donde não podes sair,

Se é da porta que se fecha no caminho

Ou da luz que afugenta a escuridão,

Se é do mundo onde eu ando sozinho

Ou da forma como vês o coração,

Se é do ódio que trazes guardado

Ou do brilho que trazes no olhar,

Se é de estares sempre aqui a meu lado

Ou do fim que pretendes alcançar,

Se é das batalhas que lutas pelo amor

Ou das nuvens sobre ti a pairar,

Se é do fogo que ao frio junta o calor

Ou da manhã que o dia vem alegrar,

Se é do espelho que mostra a tua alma

Ou dos passos dados junto ao mar,

Se é da tua serenidade e d essa calma

Ou da minha vontade de te achar…

Fábio Fontes  nº 11  11ºL